O Roteiro Histórico do Centro de Campinas tem início na Estação Ferroviária, o belo conjunto arquitetônico, construída a partir de modelo inglês, atesta a riqueza da expansão cafeeira, a partir de 1850, na cidade. Os trens chegaram a Campinas em 1868, sendo a Estação campineira uma das mais antigas do Estado. O destaque, no interior do edifício, vai para vários detalhes, como lustres, janelas, escadas, plataformas, antigos vagões, e pesos ferroviários.

O entorno da estação também possui prédios de interesse, como os sobrados ornamentados da avenida Andrade Neves, que dão uma ideia da elegância dos arredores no auge do funcionamento da Estação. Próximo a Estação Ferroviária, à esquerda, na esquina, logo se vê a Lidgerwood Manufacturing Company. Uma das primeiras indústrias instaladas no país, chegou a Campinas em 1868. Agora, em sua fábrica de risco neo-gótico, inspiração recorrente em Arquitetura industrial vitoriana, de 1884, funciona o Museu da Cidade. Belas águias em ferro adornam as janelas. O Museu especializou-se em cultura material; apresenta peças como máquinas de escrever, vitrolas e outros artefatos, e a intenção é oferecer ao visitante uma pequena viagem no tempo.

Ao sair do Museu, caminhando a direita, já é possível avistar, no início do calçadão da rua 13 de Maio, dois edifícios comerciais instigantes: a sede da firma Grigoletti e outro casarão comercial, ao lado da Estação de ônibus Expedicionários. Nesses dois prédios, bem como em outros da avenida Andrade Neves, percebemos as fachadas ornamentadas com flores, formas geométricas, grotescas (conjuntos de máscaras ou rostos de leões). Tais ornamentos talvez sejam a marca mais característica da arquitetura campineira em seus primórdios.

Seguindo pelo calçadão quem se interessa por história da arquitetura e seus estilos tem um panorama do desenvolvimento das técnicas construtivas e do desenho de projetos no Brasil, e o surgimento da mundialmente consagrada Arquitetura Contemporânea Brasileira. Das construções de planta retangular, com decoração nas fachadas, aos edifícios com diagonais arrojadas, as formas utilizadas nas construções tornaram-se mais simplificadas, retilíneas e precisas.

Continuando no Calçadão da 13 de Maio, até a altura da rua Visconde do Rio Branco, virando à esquerda, na primeira quadra já se vê o Palácio da Mogiana, sede da Companhia Ferroviária Mogiana, que data de 1910. Seguindo a tradição dos construtores italianos, o Palácio faz referência à arquitetura clássica, com elegantes colunas e guirlandas em suas fachadas. A porta curva na esquina e os portões de ferro compõe a imponência do prédio.

Seguindo a Av. Campos Sales, chega-se a rua Regente Feijó. Ao subir, a direita, por ela pode-se avistar a Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Conceição. Foi iniciada em 1807, construída em taipa de pilão. Depois de muitos anos de debates e desacertos, a equipe de italianos do engenheiro-arquiteto milanês Cristovam Bonini, a partir de 1872, construiu, em pedra e tijolo, um frontispício clássico, que remete à Catedral de São Pedro do Vaticano e aos tratados modernos italianos de Arquitetura. Anjos, flores, colunas e símbolos litúrgicos tornam os retábulos obras-primas da escultura do século XIX no país. Vitoriano dos Anjos, mestre baiano responsável pela decoração do templo de Nosso Senhor do Bonfim de Salvador, e Bernardino de Sena, artista fluminense, dividem os créditos por esse interior raro e delicado.

Uma quadra a frente, pela rua Regente Feijó, encontra-se o Palácio dos Azulejos, residência do Barão de Itatiba, datada de 1878, em taipa e tijolos. Atualmente, abriga o Museu da Imagem e do Som (MIS), com rico acervo iconográfico. A fachada azulejada e detalhes como os dois soldados orientais da murada remetem o visitante às tradições portuguesas. Escadas e afrescos, além do acervo, fazem do MIS parada obrigatória para qualquer visita no centro da cidade. Defronte o Palácio, encontra-se um pequeno edifício, obra de Ramos de Azevedo.

Seguindo Av. Francisco Glicério a esquerda, por aproximadamente seis quarterões, encontra-se o Largo do Rosário. As fotos antigas atestam a antiga Igreja que foi demolida na década de 20. Atualmente, nos arredores da praça, existem belos sobrados ecléticos como o do Centro Cultural Vitória, de estilo neo-renascentista e construções art-déco como o Fórum, a Sede da Associação de Comércio e a matriz do famoso bar Giovanetti (e a sua linda clarabóia). Outro destaque é o Éden Bar, restaurante mais antigo de Campinas, em funcionamento desde 1889, com sua fachada de torres elegantes.

Subindo a R. General Osório, avista-se a esquerda o Palácio de Justiça. Dobrando a direita na R. Ernesto Kuhlmann, chega-se ao Mercadão. Obra do engenheiro-arquiteto campineiro Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1928), e uma importante referência histórica e arquitetônica, foi projetado a partir de inspirações neo-mouriscas. Foi inaugurado em 1908, pelo prefeito Orozimbo Maia, atualmente, possui 143 armazéns. Com uma variedade imensa de produtos, e pontos tradicionais como o Bar do Paschoal.

Seguindo pela rua Benjamin Constant, chage-se ao Largo do Carmo e a Basílica do Carmo que remete ao visitante à formação da cidade. Em 1772, os habitantes de Campinas do Mato Grosso de Jundiaí requisitaram a permissão para a construção de uma capela dedicada à Virgem Maria; a primeira capela foi erigida onde atualmente fica o monumento-túmulo de Carlos Gomes. A antiga matriz foi demolida em 1929, e em 1940 o atual templo foi inaugurado, em formato neo-gótico, nas fundações da antiga construção. A decoração tem mármores, de autoria do artista Lélio Coluccini, vitrais alemães com alto-relevos e um órgão tamburini de tubos, adquirido pela Arquidiocese em 1953, em pleno funcionamento e que é utilizado em concertos.

Descendo a rua Barão de Jaguara encontramos o prédio do Jockey Clube, datado de 1925, um dos últimos exemplares da era de ouro do café no Oeste paulista, e suas construções com ornamentos refinados. O espaço da praça conta ainda com o monumento-túmulo de Carlos Gomes (1836-1896), de autoria do escultor Rodolfo Bernardelli (1852-1931). O célebre compositor erudito faleceu em Belém do Pará e seus restos mortais foram transladados para sua cidade natal, que contratou o escultor para elaborar, no local da casa do pai do artista, um conjunto escultórico de vulto.

A rua Conceição que se inicia a frente da Catedral tem o primeiro cruzamento com a Barão de Jaguara e Conceição, bem como o traçado desta primeira via, se destacam pela quantidade de prédios ora com ornatos variados (tradicionalmente relacionados, em História da Arte e da Arquitetura, com o chamado Ecletismo) e de retas graciosas (o chamado Art-Déco). Continuando o trajeto pela Barão de Jaguara, encontramos, escondida na esquina das ruas Barão de Jaguara e Ferreira Penteado, a Fármacia Merz, de 1910, que tem curiosas fachadas com serpentes de Esculápio (símbolo da área da Saúde), figuras humanas e leões. Já a Galeria Barão Velha e o Mercadinho Campineiro são parte do imaginário afetivo de gerações de campineiros. Destaque para a gastronomia no Mercadinho, com seus bares, pastelarias e lojas de doces de milho.

Seguindo até a rua Moraes Salles, subindo duas quadras, ao entrar a direita, já é possível avistar Igreja de São Benedito, fundada em 1885, fruto de longos esforços da comunidade afro-descendente da cidade, construída pelo arquiteto-engenheiro Ramos de Azevedo. Na década de 70, o complexo de São Benedito ficou completo com a encomenda da Estátua da Mãe Preta, de autoria do artista plástico paulistano Júlio Guerra, para tratar o tema da escravidão e da contribuição africana para a sociedade brasileira.

Atrás do conjunto de São Benedito, encontra-se a Casa de Saúde, antigo Circolo Italiani Uniti que foi projeto de Samuele Malfatti e Ramos de Azevedo. Sede social da associação dos imigrantes italianos, em maio de 1886. Depois das epidemias que abalaram a cidade na virada do século, o prédio foi ampliado e se tornou enfermaria, e depois hospital, definitivamente, em 1918. A praça Professora Sílvia Simões Magro recebeu essa denominação em 1982, em homenagem à segunda vereadora eleita no município, mas conhecida como Largo de São Benedito. De bonito traçado, a praça possui busto de bronze do francês Hercule Florence (1804-1879), desenhista da Expedição Langsdorff e que foi um dos inventores da fotografia.

Na frente da Casa de Saúde está a Creche Bento Quirino, de 1916, sua bela fachada é no refinado estilo austríaco, denominado Secession, de delicado rendilhado. A direita, está o Primeiro Grupo Escolar de Campinas, a Escola Estadual Francisco Glicério foi inaugurada em 1897, em frente ao Largo do Riachuelo. A praça foi demolida quando da ampliação da avenida Moraes Salles, e a construção foi modificada ao longo das décadas, seguindo basicamente o projeto de Ramos de Azevedo, de citações renascentistas.

Descendo a avenida Anchieta, à direita, está a Praça Carlos Gomes.  Concebida pelo engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo, alia paisagismo e história, foi inaugurada em1883. O coreto, com seus velhos atlantes curvados, teto de madeira e grades de ferro trabalhado, e as palmeiras imperiais encontram-se defronte do arrojado Edifício Itatiaia, de autoria de Oscar Niemeyer. Inaugurado em 1951, o Itatiaia marca uma nova fase da Arquitetura na cidade e é uma das poucas realizações do arquiteto em solo paulista.

Em frente da praça Carlos Gomes está a antiga Escola Normal, de 1924, leva assinatura do arquiteto César Marchiso. Hoje Escola Estadual Carlos Gomes apresenta fachada e interior com afrescos, pinturas murais de técnica aprimorada. Nas imagens, figuras alegóricas comemoram o progresso da nação, a partir das propostas políticas da chamada República Velha.

Este roteiro foi criado originalmente como um projeto CultCampinas em formato de livro e mapa simples com a colaboração de várias pessoas. O texto original é de Paula Vermeersch, e as fotos de Gregory Lopes, Max Campos, Tel Amiel e Thiago Pezzo. A adaptação do texto é por Tel Amiel.